A arte pode ser uma forma de lembrar. Pode também ser uma maneira de olhar para aquilo que a cidade, muitas vezes, prefere não enxergar. É a partir dessa perspectiva que a Dignivida – Promoção da Vida Humana, por meio do Ponto de Cultura Flor do Trovão, realiza a exposição “ENTRE A MEMÓRIA E A MARGEM” na Praça do Coreto / Duque de Caxias a partir das nove horas desta segunda-feira (21), uma iniciativa que aproxima arte, memória, território e experiências de vida presentes no cotidiano de Barreiras. Com curadoria de Gelson Fernandes Vieira, a exposição reúne obras de Agamenon Amorim e Randesmar Vieira, estabelecendo um diálogo entre natureza, cultura popular, memória e as trajetórias de pessoas e personagens que, embora tenham participado da construção da história, permaneceram muitas vezes invisibilizados. A exposição será realizada na Praça Duque de Caxias, transformando o espaço público em lugar de encontro, contemplação e diálogo. Entre a memória e a margem O título da exposição propõe uma pergunta: quem ocupa o centro quando uma cidade conta a sua própria história? E quem permanece à margem? A margem, neste projeto, não é compreendida apenas como um lugar geográfico. É também uma condição social e simbólica. É o lugar daquelas cujas histórias nem sempre entram nos registros oficiais, mas que participaram — e continuam participando — da construção da cidade e da cultura. A exposição procura justamente deslocar o olhar para os chamados “desimportantes”, para os invisíveis, para aqueles que não costumam aparecer nos monumentos, nos livros de história ou nas narrativas oficiais, mas cuja existência constitui parte fundamental da memória coletiva. Agamenon Amorim: natureza, território e memória Agamenon Amorim, artista visual, artífice e pesquisador das memórias populares, constrói sua produção a partir do encontro com objetos, imagens e fragmentos do cotidiano. Na exposição, seu trabalho estabelece uma relação entre natureza, território e memória, tendo as orquídeas como um dos elementos centrais de sua participação. Entre suas obras estão as telas dedicadas às orquídeas Cattleya labiata, Dendrobium nobile e Cattleya aclandiae, espécies que carregam consigo histórias de pertencimento, identidade e relação com o território. A Cattleya labiata, conhecida como “Rainha do Sertão”, apresenta sua exuberante floração no final do verão e início do outono. A espécie foi classificada e descrita pelo botânico inglês John Lindley, em 1824, tornando-se também parte do imaginário relacionado à flora nordestina. A Dendrobium nobile, conhecida popularmente como “olho de boneca”, aproxima o olhar artístico da delicadeza e da diversidade do universo das orquídeas. Já a Cattleya aclandiae, espécie associada à flora da Bahia, estabelece uma relação ainda mais direta entre a obra e o território regional. Nas telas de Agamenon, as flores podem ser vistas para além de sua dimensão ornamental. Elas constituem também marcas de um território, elementos de uma paisagem e referências capazes de ativar memórias. A natureza torna-se, assim, uma espécie de arquivo. Randesmar Vieira, Mola: memória, capoeira e os invisíveis A exposição apresenta também a produção de Randesmar Vieira, artista e capoeirista conhecido como Mola, cuja trajetória esteve profundamente vinculada à cultura popular e à capoeira. Randesmar faleceu recentemente, fazendo com que sua presença na exposição adquira uma dimensão ainda mais significativa. Suas obras passam a constituir também um lugar de memória: uma maneira de manter presente sua trajetória, sua relação com a cultura e as marcas que deixou na comunidade. Entre as obras de Randesmar apresentadas na exposição estão “Pancoso” e “Corisco”. Pancoso: uma memória de Barreiras A obra “Pancoso” retrata um dos primeiros moradores em situação de rua de Barreiras. Sua presença na exposição recupera uma história que dificilmente aparece nos registros oficiais da cidade. Pancoso pertence à memória cotidiana de Barreiras, às ruas e às pessoas que testemunharam diferentes momentos da transformação urbana. Ao transformar Pancoso em tema de sua obra, Randesmar desloca esse personagem da condição de invisibilidade para o campo da memória. A tela nos conduz a uma pergunta fundamental para a exposição: Quem são as pessoas que fizeram parte da história de uma cidade, mas que não foram consideradas importantes o suficiente para serem lembradas? Pancoso representa, nesse sentido, um dos invisíveis da história de Barreiras. Sua imagem torna-se uma possibilidade de inscrição na memória coletiva. Corisco: uma memória nordestina Na obra “Corisco”, Randesmar desloca seu olhar para o universo nordestino. Personagem associado à história e ao imaginário do cangaço, Corisco tornou-se uma figura emblemática das narrativas sobre o Nordeste. Sua representação permite pensar como determinados personagens são transformados em símbolos e como suas trajetórias permanecem atravessadas por diferentes interpretações da história, da violência, da resistência e da cultura popular. Se Pancoso representa o invisível na história de Barreiras, Corisco desloca essa reflexão para o contexto nordestino. São duas escalas diferentes de uma mesma questão. Um pertence à memória de uma cidade. O outro pertence à memória e ao imaginário de uma região. Ambos nos conduzem à necessidade de perguntar quem é lembrado, quem é esquecido e quem tem o direito de permanecer na memória. Dois artistas, diferentes olhares, uma mesma margem A aproximação entre as obras de Agamenon Amorim e Randesmar Vieira não pretende apagar as diferenças entre suas trajetórias ou linguagens. Ao contrário. A exposição preserva a singularidade de cada artista e estabelece entre eles um diálogo a partir de um tema comum: a memória como território de disputa, pertencimento e reconhecimento. De um lado, Agamenon olha para a natureza, para as flores e para as marcas do território. De outro, Randesmar olha para personagens e experiências humanas que ocupam lugares marginais nas narrativas oficiais. As orquídeas, Pancoso e Corisco pertencem a universos distintos, mas encontram-se na exposição por meio da pergunta sobre aquilo que merece ser lembrado. A praça como espaço de encontro A escolha da Praça Duque de Caxias também possui um significado especial. Ao ocupar um espaço público, a exposição rompe com a ideia de que a arte precisa estar restrita às galerias, museus ou instituições culturais. A praça torna-se sala de exposição, lugar de convivência e espaço para a circulação de diferentes experiências. Nesse espaço, artistas, moradores, pessoas em situação de rua, capoeiristas, trabalhadores, estudantes, crianças e visitantes podem se encontrar diante das obras e, a partir delas, produzir novas perguntas sobre o território onde vivem. A proposta é criar uma experiência em que ver também seja uma forma de escutar. A capoeira como memória em movimento A abertura e o encerramento da exposição contarão com a presença da bateria de capoeira coordenada pelo Mestre Jorge, do Instituto Arte Dendê. A presença da capoeira estabelece uma relação direta com a trajetória de Randesmar Vieira, o Mola, capoeirista cuja vida esteve vinculada à cultura popular. Nesse contexto, a bateria não aparece apenas como uma apresentação cultural. Ela integra o próprio conceito da exposição: memória que se movimenta, corpo que guarda histórias e cultura que continua sendo transmitida entre gerações. A roda de capoeira torna-se também uma forma de continuidade. Enquanto as obras preservam imagens e histórias, o corpo dos capoeiristas mantém vivos gestos, ritmos, cantos e saberes. Uma exposição para lembrar os que ficaram à margem “ENTRE A MEMÓRIA E A MARGEM” convida o público a olhar para as obras, mas também para aquilo que existe ao redor delas. Para as pessoas. Para a praça. Para a cidade. Para as histórias que permanecem. Para aquelas que desapareceram. E para aquelas que ainda estão sendo construídas. As orquídeas de Agamenon Amorim remetem à natureza, ao território e à memória da flora. Pancoso, na obra de Randesmar Vieira – Mola, nos conduz à memória invisibilizada de Barreiras. Corisco, também na produção de Randesmar, amplia a reflexão para o contexto nordestino e para os personagens que atravessaram a história e foram transformados em símbolos. E a própria trajetória de Randesmar Vieira, o Mola, capoeirista e artista, torna-se parte da exposição como uma memória cultural que permanece através de sua obra e de sua presença na história da comunidade. No conjunto, a exposição procura fazer emergir aquilo que normalmente permanece fora do centro. Os desimportantes. Os invisíveis. Os que estiveram à margem. Porque talvez seja justamente na margem que muitas das histórias mais importantes de uma cidade continuam esperando para ser lembradas. Entre a memória e a margem, existe um território de encontros. E é nesse território que a Dignivida, por meio do Ponto de Cultura Flor do Trovão, convida a comunidade a estar.
SERVIÇO Exposição: ENTRE A MEMÓRIA E A MARGEM Local: Praça Duque de Caxias – Barreiras (BA) Realização: Dignivida – Promoção da Vida Humana Produção cultural: Ponto de Cultura Flor do Trovão Curadoria: Gelson Fernandes Vieira Artistas: Agamenon Amorim e Randesmar Vieira (Mola) Obras de Agamenon Amorim: Cattleya labiata, Dendrobium nobile e Cattleya aclandiae Obras de Randesmar Vieira (Mola): Pancoso e Corisco Capoeira: Bateria coordenada pelo Mestre Jorge – Instituto Arte Dendê Uma exposição sobre arte, natureza, memória, território e as histórias daqueles que continuam entre nós — mesmo quando a história oficial insiste em esquecê-los.